BREVE HISTÓRIA DAS MOLDURAS EMOCIONAIS
Apesar de ter demorado 23 anos para ser desenvolvida, nossa Teoria das Molduras Emocionais só tomou a forma como conhecemos hoje mais recentemente. Até então, ela esteve maturando, se fortalecendo e se definindo, até constituir um modelo sólido o bastante para viabilizar nossa grande ambição.
Para explicar melhor, podemos definir a sua história em três etapas. Na primeira, há vinte anos, o foco de atenção eram os fundamentos da psicologia. Naquele momento, percebíamos que era possível um tipo de unificação da psicologia, já que nós encontrávamos tanto na filosofia quanto no método fenomenológico as chaves para tal feito. O problema na época era como desenhar essa abordagem geral, saber com o que ela se pareceria. Também o número imenso de objetos de estudo tomou um tempo maior do que se esperava.
O segundo momento, últimos dez anos, foram destinados à pragmática. Percebemos que não bastava compreender os princípios dessa nova abordagem. Eles eram tão abrangentes que definir uma teoria era sempre um tipo de renúncia. Assim, o segundo passo foi a experimentação. Decidimos que a prática e a aplicação de diferentes técnicas psicológicas seria a melhor base para o nosso estudo e para selecionar os pontos de convergência mais relevantes.
O terceiro momento, que estamos agora, é marcado pela definição de um modelo que temos chamado de Teoria das Molduras Emocionais. É curioso e visionário o fato de ter sido um modelo construído intencionalmente, como que em laboratório. Depois de dominarmos os fundamentos da construção de uma teoria psicológica, depois de experimentarmos técnicas poderosas de intervenção, resolvemos desenvolver algo realmente significativo.
A pergunda passou a ser: "Já que não é possível um modelo realmente geral da psicologia, qual seria o modelo mais útil que poderíamos construir? Um modelo para auxiliar as pessoas a viver melhor?" - para tomar melhores decisões, dominar potencialidades, etc. Outra pergunta foi: "Qual modelo ideal para produzir e acumular conhecimentos?" - como é esperado de uma boa teoria psicológica - capaz de tornar-se mais complexa, evoluir, aprender com as suas aplicações. Essas e tantas outras preocupações resultaram no modelo que temos hoje.
Ficamos extremante realizados com os progressos que a nossa teoria tem apresentado. Estamos anos à frente em seu desenvolvimento. Em outro artigo comentaremos a intenção e propósito do primeiro livro, que sintetiza as bases fundamentais e explora de forma bem agradável a presença das molduras emocionais em diferentes contextos. É um livro introdutório e prazeroso, mas que convida o leitor à internalizar ferramentas altamente poderosas que ele deve descobrir na prática. Nos arriscaríamos até a chamar de um livro enigmático, pois tem muito mais a extrair nas entrelinhas do que se pode imaginar.
O CÍRCULO DAS MOLDURAS PRIMÁRIAS É UM DOS MATERIAIS PREPARADOS PARA AS NOSSAS APRESENTAÇÕES.
PARA QUEM LEU O LIVRO, ELE AJUDA A COMPREENDER DE FORMA VISUAL A ESTRUTURA FUNDAMENTAL DE ALGUNS CONCEITOS.
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O QUE TODOS PERGUNTAM: QUAL A DIFERENÇA ENTRE
MOLDURAS EMOCIONAIS E AS MOLDURAS RELACIONAIS (RFE)
A primeira característica que devemos apontar para na Teoria das Molduras Emocionais é que ela é um modelo integrador da psicologia. Aí já encontramos diferenças. Podemos dizer de algum modo que ela é tão pragmática quanto a neurolinguística e tão filosoficamente coerente quanto a fenomenologia. De qualquer modo, a sua epistemologia é fenomenológica. Para os mais entendidos no assunto, algumas das suas influências são: gestalt-terapia, psicologia analítica, existencialismo, psicanálise, terapia de esquemas, humanismo, neuropsicologia, TCC e o modelo de economia comportamental de Daniel Kahnemann. Agora vamos à questão polêmica:
A chamada Teoria das Molduras Emocionais surge como um desenvolvimento conceitual que dialoga diretamente com todas as abordagens da psicologia (já que é uma teoria integradora). Portanto, também dialoga com a tradição das Molduras Relacionais - especialmente com os avanços derivados da Relational Frame Theory (RFT), formulada por pesquisadores como Steven C. Hayes. Embora ambas as abordagens compartilhem a ideia central de que a experiência humana é organizada por estruturas de interpretação que moldam percepção, significado e comportamento, elas diferem quanto ao foco principal de análise, aos níveis de intervenção, à base epistemológica e ao tipo de aplicação prática privilegiada.
A Teoria das Molduras Relacionais foi construída para explicar como a linguagem humana cria redes de significados que permitem relacionar estímulos de maneira arbitrária — por exemplo, compreender relações de equivalência, oposição, comparação ou hierarquia entre palavras, conceitos e eventos. Essa estrutura explica como aprendemos que “mais que”, “menos que”, “igual a”, “melhor que” ou “pior que” não são propriedades físicas dos estímulos, mas relações aprendidas socialmente e linguisticamente. O grande mérito dessa teoria foi demonstrar que o comportamento humano complexo pode ser compreendido como produto de redes relacionais aprendidas, oferecendo uma base experimental sólida para compreender cognição, linguagem e processos clínicos como sofrimento psicológico mediado por pensamentos.
A Teoria das Molduras Emocionais, por sua vez, não nega essa base relacional; ela a amplia ao propor que, além das redes linguísticas de significado, existem molduras organizadas principalmente por tonalidades emocionais que orientam a forma como interpretamos situações e decidimos agir. Em outras palavras, enquanto a teoria relacional explica como significados se conectam cognitivamente, a teoria das molduras emocionais enfatiza como estados afetivos recorrentes organizam campos inteiros de percepção, atenção e comportamento. Uma pessoa pode, por exemplo, compreender cognitivamente que determinada tarefa é importante e útil, mas, se a moldura emocional predominante associada àquela atividade for marcada por ansiedade de avaliação ou sensação de inadequação, a tendência comportamental será de evitação, mesmo diante de argumentos racionais favoráveis à ação.
Essa diferença de foco produz vantagens práticas importantes. A primeira vantagem é a maior capacidade de intervenção direta no comportamento cotidiano. A abordagem relacional é extremamente poderosa para compreender como pensamentos influenciam o sofrimento humano, mas muitas vezes exige processos terapêuticos mais sofisticados para alterar redes relacionais complexas. Já a abordagem das molduras emocionais permite intervenções pragmáticas baseadas na identificação rápida do “clima emocional dominante” de uma situação e na reorganização gradual da experiência emocional associada à ação. Em contextos organizacionais, educacionais e de produtividade, essa aplicação se mostra particularmente eficiente, pois possibilita intervenções de curto prazo focadas na alteração do estado emocional que antecede a execução das tarefas.
Uma segunda vantagem é a integração mais direta entre emoção, motivação e comportamento. A teoria relacional explica como os significados são estruturados, mas a teoria das molduras emocionais enfatiza como determinados estados emocionais funcionam como sistemas de priorização comportamental. Emoções não são vistas apenas como respostas internas, mas como organizadoras de campos de ação: molduras de ameaça ampliam comportamentos de proteção, molduras de conquista aumentam comportamentos de aproximação, molduras de validação social intensificam comportamentos de exposição, e assim por diante. Essa perspectiva facilita compreender fenômenos como procrastinação, autossabotagem, excesso de controle ou impulsividade não apenas como distorções cognitivas, mas como efeitos previsíveis de molduras emocionais dominantes.
Uma terceira vantagem é o potencial integrador da teoria. Ao focalizar a organização emocional da experiência, a Teoria das Molduras Emocionais consegue dialogar simultaneamente com diferentes campos — behaviorismo contextual, neurociência afetiva, psicologia motivacional e psicologia social — criando uma linguagem mais acessível tanto para profissionais quanto para o público leigo. Enquanto a RFT possui forte base experimental e linguagem técnica voltada à pesquisa comportamental, a abordagem das molduras emocionais facilita a tradução dos conceitos para intervenções educacionais, treinamentos de liderança, programas de desenvolvimento pessoal e protocolos clínicos mais diretos.
Isso não significa que uma teoria substitua a outra. Na realidade, a relação entre elas pode ser compreendida como complementar. As molduras relacionais explicam a arquitetura simbólica que estrutura significados; as molduras emocionais explicam a dinâmica afetiva que determina quais significados ganharão prioridade comportamental em cada contexto. Podemos compreender cognitivamente inúmeras alternativas de ação, mas a moldura emocional ativa no momento é frequentemente o fator decisivo que define qual delas será executada.
Assim, a principal contribuição da Teoria das Molduras Emocionais é trazer para o primeiro plano o papel organizador das experiências afetivas recorrentes na formação de padrões de comportamento, oferecendo ferramentas mais pragmáticas para mudança comportamental aplicada. Ao integrar a precisão conceitual das redes relacionais com a centralidade motivacional das emoções, essa abordagem amplia o alcance das intervenções psicológicas, permitindo compreender não apenas como pensamos sobre o mundo, mas principalmente como nos posicionamos emocionalmente diante dele — e como essa posição molda, de forma contínua, as nossas escolhas.
O último aspecto a ser apontado é a finalidade: o objetivo final do nosso modelo é unicamente a prática e a aplicação. Somos focados em resultados e desejamos um modelo cada vez mais abrangente e simples. Não temos o interesse de nos posicionar no mundo acadêmico. Ao contrário, a Teoria foi construída com o objetivo de extrair do acadêmico apenas o útil para potencializar e ampliar as capacidades humanas. Sua utilização é destinada não só aos terapeutas, mas especialmente por pessoas comuns e nas suas mais diversas áreas, seja no mundo corporativo ou mesmo na vida pessoal.